Escrever é um hábito meu. Quando sinto a necessidade de compreender alguma coisa mais profundamente sento-me, caneta na mão, e deixo as ideias fluírem. Esperem um pouco de tudo!

Violino, meu filho

20 de Setembro, 2019

Sou um apaixonado dos Açores porque sou um apaixonado da natureza. Os verdes mil que refulgem ao sol, as estradas que são longas avenidas enfeitadas de hortenses coloridas e viçosas árvores, a brisa marinha que salga o ar irradiando vida... É sem dar por isso que fico submerso neste mundo fantástico que é São Miguel.

Vim cá para tocar no Teatro Micaelense num concerto marcado por uma coincidência engraçada, o remake da minha estreia como violinista à frente de uma orquestra. Aconteceu há nove anos e tinha apenas vencido o Prémio Jovens Músicos no nível médio, acontecimento que me trazia à ilha para tocar o Concerto em Mi menor de F. Mendelssohn com a Orquestra Gulbenkian. Agora, em 2019, páro aqui novamente para tocar o mesmo concerto, com a mesma orquestra, no mesmo sítio.

Paira neste teatro uma vibração que me transmite bem-estar, sinto-me acolhido. Da acústica ao público, pormenores que capricham qualquer músico profissional, tudo se alinha para proporcionar um bom concerto. Não cabem resmas de gente nesta sala mas sentam-se as pessoas necessárias, o número certo para criar intimidade, sem a distância e frieza das salas que levam milhares ou a pobre atmosfera das salas pequenas e murchas, afinal quer-se público para um concerto com orquestra!

Depois da minha prestação na primeira parte do espectáculo, decidi ocupar um lugar na plateia e ouvir a 8ª Sinfonia de Beethoven, música extraordinária tocada por colegas que me são muito queridos. Mesmo se o desejasse, não teria conseguido passar despercebido entre os membros do público, alguns dos quais me vieram felicitar pela performance ainda fresca na memória. Ouvi um bocadinho de tudo: saudações ao transe em que entro quando toco, arrastando o público comigo; ouvi que choro com o violino, que o agarro com o carinho e a intensidade de quem segura a um filho; até houve uma senhora que me disse, quase orgulhosa, que eu podia ser seu neto! Contudo, quando uma idosa de figura notável me perguntou o que sentia em palco, o cabelo prateado concedendo-lhe um halo misterioso, fiquei sem reacção. Não soube como responder. Não porque não saiba o que sinto em palco, antes por sentir tão diferente e tão novo de cada vez que o piso. Poderia lá dizer-lhe que às vezes duvido do que vem a seguir na música, se me vou lembrar duma passagem ou se vou conseguir chegar ao fim do concerto sem desmaiar. Ou que, noutros momentos, me sinto imparável, possuído por uma força maior que eu, como se me sussurrassem ao ouvido a interpretação.

Fiquei a pensar sobre isto até muito depois de a sala ter ficado vazia e as luzes se apagarem, acabando por me questionar sobre a razão de querer tocar todos os dias, de não conseguir separar-me do violino e da música. Não tenho uma resposta definitiva, mas hoje, ao ouvir um quarteto de Haydn na rádio enquanto fazia o caminho para as plantações de chá da Gorreana, cheguei a uma conclusão satisfatória.

O grupo que tocava, o Quarteto Hagen, fazia-o de forma extraordinariamente junta e afinada, quatro músicos perfeitamente unidos na narrativa musical. Achei uma seca tremenda. Estava demasiado perfeito, se é que tal pode ser dito, pouco livre e com pouca variedade. Contudo, apesar de não conseguir sentir prazer ao ouvir aquela gravação, não fui capaz de mudar de estação. Era a força da música de Haydn a exercer poder em mim, a sua genialidade e frescura. A capacidade de se reinventar sozinha tão fácil e livremente permitem imaginá-la sempre diferente, novidade constante, à imagem da natureza.

Apercebi-me então do que me faz continuar a tocar todos os dias: é o reconhecer a existência de inúmeras possibilidades com a música, milhares de histórias que podem ser contadas com matéria que, a olho nu, parece ser sempre a mesma. Mas se assim fosse, se a música fosse realmente algo imutável e estacionário, não perduraria, e não insistiríamos, década após década, em continuar a tocar sinfonias de Beethoven, sonatas de Mozart ou mazurkas de Chopin. O que num dia parece significar o nascimento de um ser humano, no seguinte transforma-se no fim da civilização, na passagem para o etéreo e eterno. Essa beleza, essa complexidade e o aparente infinito de ser e de sentir, são a força motriz da minha vontade para o dia de amanhã.

Quero acabar esta brevíssima reflexão numa nota muito pessoal, uma analogia que surgiu por causa do público mas que resume a razão pela qual toco. Quem me é próximo sabe a melancolia sonhadora que sinto por nunca poder vir a ser mãe. Soa estranho? Um pouco, afinal de contas nasci rapaz! Mas, do fundo de mim, acredito não haver ligação humana mais forte que a de uma mãe para com seu filho. Como vos contei, ontem disseram-me que agarro o violino como a um filho. Talvez seja isso o mais próximo que estarei de ser mãe. Assim, tal como uma mãe o é todos os dias, toco eu todos os dias também.

Partilhar na Música

24 de Fevereiro, 2018

A hora era avançada e o sol já dormia. As luzes incandescentes dos altos edifícios fundiam-se num véu que cobria o azul negro do céu salpicado de estrelas. Eu tinha acabado um concerto momentos antes e uma senhora da sua idade veio ter comigo, passo calmo mas decidido. Com um sorriso aberto e amigável na cara, os olhos brilhando, como que de criança, disse-me como tinha gostado muito de ouvir o concerto. Durante a actuação sentiu-se ausente da realidade e perdeu a noção do tempo, constatou, para depois assumir um ar de curiosidade e perguntar porque tinha eu decidido tocar violino profissionalmente. A minha resposta não podia ter sido mais simples: eu escolhi música porque quero que as pessoas se sintam como ela se sentiu no concerto! Partilhar, isto é. Na música nada me faz mais feliz que poder partilhar os meus sentimentos com outras pessoas e esperar que os sons do meu violino as toquem de alguma forma.

Quando penso em partilha de um ponto de vista musical, dois termos - individualidade e provocação - surgem na minha mente, servindo como o primeiro tijolo de uma parede a erguer. Os dois conceitos andam lado a lado no meu mundo. Posso explicá-los assim:
Eu acredito em indivíduos! Acredito que cada um de nós, seres humanos, tem algo a dizer, mistérios únicos desconhecidos a todos os outros. Mas não se apressem a julgar, eu não quero com isto dizer que nos devemos agarrar às nossas ideias com demasiada firmeza e a todo o instante, assim ignorando as dos que nos rodeiam – e aqui provocação junta-se à individualidade. Quando provocados por outrem, sentindo leves cócegas nos sentidos e no cérebro, pensamos de novas e diversas formas, consideramos perspectivas alheias e aprendemos do desconhecido; se nada mais, aprendemos como argumentar melhor pelas nossas ideias por as termos de justificar claramente. Tendo cada indivíduo algo de diferente a oferecer, então que cada um provoque o seguinte! Mas para não me alongar demasiado e voltar ao assunto principal, onde, na música, podemos encontrar o equílibrio entre as duas ideias, a parte que é identidade e a que é receber e estimular?

Entre as três principais plataformas para se actuar na música clássica – a solo, em música de câmara, em orquestra –, e falando de relações pessoais que frequentemente durarão uma carreira, música de câmara é para mim a vertente mais atraente a nível humano. Por ter já experienciado um pouco de cada uma delas tenho uma opinião formada. As circunstâncias de quando se toca a solo dificultam o desenvolvimento de discussões sobre a música com os músicos, somos demasiados e o tempo juntos é demasiado pouco. O maestro é o único veículo do solista no momento de representar as suas ideias. De forma semelhante, quando fazes parte de uma orquestra, o senhor da batuta continua a ser quem decide acerca dos contornos gerais da música. Nenhum indivíduo se destaca a não serem os solistas da orquestra. Resta-nos assim música de câmara. Ao tocar em música de câmara é possível desfrutar de um nível de individualidade em que simultaneamente existe espaço para discutir ideias diferentes e experimentá-las sem fim.

Num grupo reduzido de pessoas a intimidade é maior, e tão maior é a ligação entre elas também. Aqui, partilha e aprendizagem acontecem continuamente, tal qual um rio que aflui incessante ao oceano. A capacidade auditiva é desenvolvida a um ponto que alguns não acreditariam. Num ensemble de câmara todos têm de estar alerta e prontos a reagir a outros indivíduos, ao que eles possam fazer de diferente, à expressão do seu som num dia em particular… E a espera pela reacção mantém as pessoas no seu limite pois é uma espera vibrante, fá-las manterem a concentração e procurar sinais daqueles à sua volta. Mas no mundo da música, como em muitas outras coisas da vida, nem tudo é de mundo encantado. O facto de haver espaço para a discussão e partilha de novas ideias, quer dizer também que há espaço para surgirem desacordos e se acumular tensão. Esta é a razão que justifica a minha crença nas capacidades humanas de uma pessoa também se desenvolverem através da música de câmara – cada um tem de aprender a ceder, a aceitar e a comprometer-se e a tirar satisfação artística de ideias alheias, e, acima de tudo, tem de fazê-lo de forma respeitosa. Falo de respeito pois conheço as vontades do coração e sei como é fácil sucumbir ao temperamento quando alguém não considera a nossa posição. Aprender a controlar tais impulsos é essencial; não apenas numa formação de câmara mas noutras quaisquer outras relações humanas também. Compreensão cresce duma atmosfera de calma e lógica.

Apesar de um tanto curto, todo o argumento acima vai numa direcção: música de câmara é para indivíduos, indivíduos com desejo de se fundirem com outros indíviduos e formar um todo, e não para aqueles que procuram apenas fama e reconhecimento sozinhos. Um ensemble é um indivíduo por si só, um formado por dois, três, quatro ou mais indivíduos. A esperança é que essas pessoas partilhem um propósito, que se rejam por ideais realistas e sonhem em passarem os seus valores à comunidade. Afinal porque deves tu privar os outros do que és? Partilhar é contagioso; é o começo de qualquer relação e o meio de fortalecer ligações entre seres humanos. Embora recompensador por si só, partilhar trará sempre algo de novo e, assim, bem-vindo.